terça-feira, 16 de agosto de 2011

primeiro dia

Vi-a pela pela primeira vez em uma manhã quente de março. Era meu primeiro dia de aula na quinta série, no colégio em que estudei a vida inteira.
Ela usava meias altas, coloridas, que acompanhavam sua perna até acima do joelho, fazendo-a parecer um pouco tola - mas certamente menos baixinha. Devia ter seis anos.
Estava do outro lado da rua, olhando para o colégio como um bezerro que encara o matadouro. Em uma mão, uma lancheira cor-de-rosa; na outra, um vazio: não segurava mão alguma. Tive-lhe pena. Sabia como era a sensação. Claro, fazia já alguns anos que eu entrara no colégio, mas lembrava-me ainda do meu primeiro dia. O nervosismo, os olhares tensos, o suor frio nas mãos. A briga em casa para não ir. Meu pai... Sacudi-me para espantar as más memórias de meus primeiros dias.
Um colega meu aproximou-se de mim e começamos a conversar (sobre a professora de Geografia, que, dizia-se, seduzia e atacava os alunos que permaneciam na sala após o horário da aula; isso causava uma debandada geral logo que batia o final do período de Geografia). Em alguns minutos, o sinal tocou alto, sinalizando o começo de mais um ano. As crianças e os jovens começaram a entrar no prédio: os mais novos, empolgados, correndo; os mais velhos, arrastando-se, como que para a sala de tortura.
Olhei para o outro lado da rua e vi-a lá, ainda parada - agora petrificada, eu diria. Crianças passavam ligeiras por ela, esbarrando em seus ombros, atravessando a rua em direção à escola; ela permanecia parada. Despedi-me de meu colega, disse "já vou lá!" e atravessei a rua em direção à menina. Parei em sua frente. Ela, minúscula, batia antes do meu ombro. Sorri para ela. Ela me olhou assustada; parecia pedir clemência. Insisti no sorriso. Encostei-me ao seu lado, de frente para a escola, como ela. Tomei sua mão na minha; olhei novamente para ela, agora sem sorriso, mas com o olhar mais convidativo e a maior gentileza que pude inspirar na hora. A garotinha me olhou, ainda séria, porém mais decidida. Atravessamos juntos a rua. Ela estacou na frente dos portões da escola. Com uma sacudidela da cabeça (e de seus longos cabelos), olhou-me com pesar e perguntou:
- E se eu não gostar? E se meus colegas não forem legais? E se eu não entender o que a professora diz? E se eu achar que não é isso que eu quero fazer? E se eu quiser voltar pra casa?!
Prometi, em silêncio, que sempre a levaria pela mão, aonde quer que fosse.

Um comentário:

  1. só eu vou saber a real graça dele, e isso me faz sorrir.

    perca.

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