Apaixonei-me por um navio. Um navio que não tinha destino: tinha escalas.
Irreversivelmente atraída pelo navio, esperava ele dar suas voltas pelo mundo. Recebia-o em meu porto, com um abraço e boas notícias; despedia-me com um lenço em mãos, os olhos marejados. Mas o navio era ligeiro; nem bem via minhas lágrimas, saía buzinando rumo a outra costa qualquer.
Éramos felizes, quando juntos, mas não fazíamos promessas quaisquer um ao outro: era algo momentâneo, inocente, espontâneo, puro (ele gostava de usar essa expressão).
E assim se foram anos. Eu esperava o meu navio. Ele atracava no meu porto, mas logo ia embora, deixando-me às lágrimas - sem sequer notar.
Quase acostumado a essa rotina de reencontros, despedidas e indiferença, um dia recebo uma carta. É do meu navio. Ele se foi há uma semana, e já me manda uma carta?! Rasgo o envelope e leio as confusas letras da carta: mas... mas... não faz sentido! O meu navio não quer mais me ver! Diz que sente minha falta em suas viagens; diz que vira de costas ao ir embora, não por indiferença, mas para esconder suas lágrimas! Diz que atracar em muitos portos é que é sua vida; que eu sou apenas um capítulo - apenas circunstancial. Que não devo procurá-lo, que não devo tentar dissuadi-lo. "Boa sorte" ele diz ao final!
Desnecessário dizer o quanto amaldiçoei aquele navio! Seu casco envelhecido, sua buzina estupidamente alta, seu motor barulhento, sua tripulação grosseira... (...) sentia falta de cada um de seus defeitos, mas fingia ver, em cada um deles, motivo para não sentir saudade.
Do navio não ouvi por muito tempo. Um rumor ou outro, de que havia se acidentado (consegui fingir indiferença), de que havia encontrado riquezas e atracado definitivamente em algum porto longínquo... as histórias eram as mais fantasiosas, e eu já imaginava que nenhuma delas era realmente verdade.
...
Um dia, caminhava eu pelo cais. Fingia que era um atalho para minha casa, mas eu bem sabia por que estava ali. Aquele cheiro desagradável do rio, aquela gente esquisita, aqueles atracadouros com sua madeira podre... eu conseguia tirar algo bom de tudo aquilo, só de lembrar do meu navio. Nossas longas conversas, nossas risadas; músicas, carinhos, livros, olhares.
Vi, ao fundo, o casco do meu navio, virado de costas para mim. Seria ele? Ou será que a distância teria me confundido? Caminhei (primeiro lentamente; depois, a passos largos) até o píer onde ele estava. Ouvi sua buzina cantando alta e desajeitada; era ele!
Aproximei-me lentamente por trás, cutuquei-lhe as costas. Ele virou para mim. Primeiro, um olhar sério e repreensivo; não aguentando, abriu um sorriso amigável. Pegou em minha mão.
Meu navio começou "descul...", mas "não!" eu disse. "Um começo?" ele arriscou. "Um começo", consenti.
E é por isso que estou indo embora.
domingo, 1 de maio de 2011
sábado, 30 de abril de 2011
cidade, chuva e o que mais a gente for
chove na tua cidade,
e tu não estás aqui pra assistir.
caio na tua calçada,
e tu não estás aqui pra me juntar.
chove na nossa cidade,
e eu sozinho a imaginar
o dia que eu cair na tua calçada
e tu vieres me juntar.
chove agora uma garoa
que nem serve pra molhar...
só pra me lembrar das vezes que caí
(e tu vieste me juntar)
chove na minha cidade,
que nem é mais bem tua.
[e se não é bem tua,
tampouco minha há de ser.
vou aí cair na tua calçada
se assim escolher]
e tu não estás aqui pra assistir.
caio na tua calçada,
e tu não estás aqui pra me juntar.
chove na nossa cidade,
e eu sozinho a imaginar
o dia que eu cair na tua calçada
e tu vieres me juntar.
chove agora uma garoa
que nem serve pra molhar...
só pra me lembrar das vezes que caí
(e tu vieste me juntar)
chove na minha cidade,
que nem é mais bem tua.
[e se não é bem tua,
tampouco minha há de ser.
vou aí cair na tua calçada
se assim escolher]
quarta-feira, 27 de abril de 2011
sorriso-e-até-logo
Brindo comigo mesmo ao teu sorriso de esperança;
Brindo aqui sozinho, ao desafio da distância.
Brindo triste e solitário:
Triste nem tanto;
Solitário por enquanto.
Brindo aqui sozinho, ao desafio da distância.
Brindo triste e solitário:
Triste nem tanto;
Solitário por enquanto.
domingo, 17 de abril de 2011
combinar
(Ao vê-la do outro lado da rua, soube logo o que fazer. Recitou para si próprio um verso de sua canção favorita, respirou fundo e atravessou a avenida em direção a ela, não sem antes ajeitar seu chapéu favorito na cabeça.)
(Ao vê-lo atravessando a rua em direção a si, ela diminuiu o passo, respirou fundo e mirou seu reflexo em uma vitrine. Achava-se comum demais. Pelo menos estava com seu vestido favorito.)
Ele fez uma reverência esquisita, derrubando sua cartola. Ela riu; um riso situado entre o constrangimento e a empatia - era desastrada também.
Ela juntou a cartola do chão, deu um tapinha para tirar a poeira e colocou-a na cabeça. A cartola cobria-lhe as orelhas e mais de metade dos olhos. Combinava de um modo inesperado com seu vestido roxo e com seus sapatos bem lustrosos. Talvez fosse o brilho da cartola, talvez fosse a cor, talvez fosse o mero fato de que eram indiscutivelmente feitos para combinar...
(Ao vê-lo atravessando a rua em direção a si, ela diminuiu o passo, respirou fundo e mirou seu reflexo em uma vitrine. Achava-se comum demais. Pelo menos estava com seu vestido favorito.)
Ele fez uma reverência esquisita, derrubando sua cartola. Ela riu; um riso situado entre o constrangimento e a empatia - era desastrada também.
Ela juntou a cartola do chão, deu um tapinha para tirar a poeira e colocou-a na cabeça. A cartola cobria-lhe as orelhas e mais de metade dos olhos. Combinava de um modo inesperado com seu vestido roxo e com seus sapatos bem lustrosos. Talvez fosse o brilho da cartola, talvez fosse a cor, talvez fosse o mero fato de que eram indiscutivelmente feitos para combinar...
tinha que ir
Ela não disse nada. Mirei-a com o olhar mais curioso e indagador que pude forjar e perguntei:
- Tu não vai me dar tchau?
Os olhos dela eram agora de súplica:
- Eu preciso te dar tchau? - e esboçou um sorriso nervoso.
Olhei em volta, como se alguém ali pudece decidir por mim - como se alguém ali pudesse me impedir de ficar. Cocei a cabeça, nervoso. Olhei para o relógio, para ela; para a minha passagem, para ela; para as minhas malas, para ela de novo. Virei-me para olhar o quadro de "partidas / chegadas".
... eu tinha que ir. Ou ficar.
- Tu não vai me dar tchau?
Os olhos dela eram agora de súplica:
- Eu preciso te dar tchau? - e esboçou um sorriso nervoso.
Olhei em volta, como se alguém ali pudece decidir por mim - como se alguém ali pudesse me impedir de ficar. Cocei a cabeça, nervoso. Olhei para o relógio, para ela; para a minha passagem, para ela; para as minhas malas, para ela de novo. Virei-me para olhar o quadro de "partidas / chegadas".
... eu tinha que ir. Ou ficar.
sexta-feira, 1 de abril de 2011
botas de garota de botas
Onde deixaste tuas botas,
Ó gato do telhado?
Aquele par que tu gostas.
Que nunca deixas de lado.
Terá sido numa lata de lixo;
Traindo a raça dos gatos,
Brincando com outros bichos;
Tão distraído que até esquece o sapatos?
Terá sido na casa de dona Margarida,
Que te dá um prato de leite,
Outro prato de comida,
E te deixa lá de enfeite...?
Acho que na casa de outro gato-tenor;
Não adianta esconder!
- a noite inteira a compor
Músicas e miados de prazer...
... procura bem em toda a rua
Tuas botas de cano alto.
Me dói menos que as encontre na tua
Que na cama de outro gato.
(e um dia tu me chamas
para olhar embaixo da minha cama;
o couro da bota reluz e debocha
do meu ciúme da tua galocha)
Ó gato do telhado?
Aquele par que tu gostas.
Que nunca deixas de lado.
Terá sido numa lata de lixo;
Traindo a raça dos gatos,
Brincando com outros bichos;
Tão distraído que até esquece o sapatos?
Terá sido na casa de dona Margarida,
Que te dá um prato de leite,
Outro prato de comida,
E te deixa lá de enfeite...?
Acho que na casa de outro gato-tenor;
Não adianta esconder!
- a noite inteira a compor
Músicas e miados de prazer...
... procura bem em toda a rua
Tuas botas de cano alto.
Me dói menos que as encontre na tua
Que na cama de outro gato.
(e um dia tu me chamas
para olhar embaixo da minha cama;
o couro da bota reluz e debocha
do meu ciúme da tua galocha)
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